Em que momentos me senti, ou me sinto realmente livre?
O que não me deixa ser efectivamente
livre? Quando vivo num país democrático, onde me é permitido dizer e fazer
praticamente tudo o que quero.
Onde está a minha liberdade enquanto ser
individual e em plana consciência de todas as decisões e opções que tomo para a
minha vida? Já sou responsável pelas minhas decisões e opções pelo
menos desde os 18 anos. Desde essa altura que não tenho de dar satisfações a
ninguém sobre aquilo que quero e que faço.
O que me aprisiona. Porque não sou
realmente livre?
Eu, dentro do meu EU, poucas são as vezes
que sou livre, ou em que me sinto realmente livre. Poucas são as vezes em que
sou realmente autêntica e genuína. São tantos os factores que influenciam o meu
SER no estado mais puro. São muitas a vezes que fico limitada pela distracção,
ou pelo pouco sentido de observação, ou pelo, deixa para lá, não interessa. Mas
a limitações não ficam por aqui, os nervos, a ansiedade, o estar deprimida ou
eufórica demais, as vivências que tive no passado, os meus preconceitos, os
estereótipos sociais a que eu quero forçosamente obedecer e muitas outras
variantes que me limitam.
Mas então em que momentos eu sou ou fui
realmente livre?
Fui livre:
- Durante a infância, quando corri pelos campos, protegida pelo amor dos meus pais e irmãos. Sim porque sem amor ou suporte emocional ninguém consegue ser livre, livre para tomar decisões, livre para ser criativo e também comer muitos erros e muitas loucuras. Ainda sou livre quando estou com a minha família, são eles que me dão o maior suporte para ser livre.
- Fui livre quando estudei em Aveiro e encontrei o mundo novo quer de pessoas, quer em conhecimento, esta fase deu-me asas para eu voar;
- Fui livre nas primeiras vezes que recebi o meu salário e pode usufruir deles sem grandes preocupações de poupança;
Sou ainda livre quando: Escrevo;
- Nado sobretudo no mar, mas também na piscina, ou quando vou ao ginásio;
- Danço, sem me preocupar com a coreografia, ou com quem está a ver;
- Estou descontraída na conversa, seja com quem for, agora já não me interessa que sejam amigos ou conhecidos, ou desconhecidos;
- Na praia ou no campo, basta estar ao ar livre;
- Senti-me livre quando passei duas semanas em Seia, na comunidade terapêutica da Casa de Santa Isabel, não só por ter umas férias dedicadas ao Outro, mas por estar perto de pessoas com valores idênticos aos meus, quase tudo naquele mundo tinha a ver comigo;
- Fui livre em todas as caminhadas que fiz a Santiago, sobretudo na última em que tomei mais consciência do que era a liberdade enquanto ser individual;
São tão poucos os momentos de liberdade, o que posso melhorar em mim para cada vez me sentir mais livre?
Uma das coisas que mais me aprisiona é sem
dúvida o trabalho, mas eu sei que tenho de estar no trabalho e que não posso
viver sem ele. Dentro desta condição onde vou encontrar o equilíbrio de
liberdade. Não é fácil, muito do meu pensamento vai para o relativizar, para o
conhecer e entender melhor o comportamento dos outros, para além do aceitar,
que nunca vamos ser os preferidos e escolhidos, mesmo que eu esfole a trabalhar
e até que seja a melhor, nunca terei o reconhecimento devido. Não quero com
isto fazer-me de coitadinha, nem sequer resignada este tipo de injustiças e a
esta minha condição, o não dar tanta importância a este tipo de coisas para mim
já é uma forma de me libertar.
Relativamente aos estereótipos
/preconceitos sociais aos quais estou presa pela minha condição física. Há uns
tempos quando falava com o namorado de uma colega minha de trabalho e lhe dizia
que ficava para traz, por ter um problema de visão, ele respondeu “as pessoas
têm naturalmente preconceitos e esse pode ser um bom motivo para o
preconceito”. Nada mais tão simples. Óbvio que eu posso fazer o meu melhor, se
com isso a opinião dos outros não mudar, bom, acho que o que os outros pensam
deve deixar de ser problema meu. Tenho a certeza que haverá sempre pessoas a
gostar de mim, tal como sou.
E a condição económica, para além de nos
condicionar naquilo que possamos ter ou não ter, é um importantíssimo fator que
condiciona o estatuto social e consequentemente nos facilita ou dificulta a
vida. E quando falo de dinheiro não falo em bens matérias, consigo viver mesmo
com muito pouco, já consegui viver com menos ainda, nem de acesso à educação,
saúde ou cultura, porque vivemos num estado social, e conseguimos muita ter
acesso a estes bens de forma mais ou menos gratuita e até com qualidade. Mas
condiciona sim a forma como os outros olha para nós, o “poder” que os outros
nos dão, esta rede de influencias que o dinheiro nos dá, traz-nos muitas
oportunidades, tanto de trabalho, de participação em eventos e oportunidades de
convivo, que nos traz saúde social. Sem dúvida que há maneiras de contornar
esta situação, não é fácil, a condição económica é um grande facto de exclusão
social.
Muitas das pessoas que têm pouco dinheiro,
estão na situação de exclusão social, não só pela falta de bens materiais, ou
por falta de acesso à educação, cultura ou saúde, mas porque são postas um
pouco à margem da sociedade, não são convidadas para ou jantares ou festas,
ninguém quer estar com elas ou passear com elas, não é chic, as pessoas ricas,
ou filhas do Dr.X, ou do Professor Y, só por esse facto, é-lhes dado bastante crédito
e bastante poder. Cabe a cada um enquanto SER individual contornar esta
situação, fazer o melhor que pode, relativizar o comportamento dos outros,
muitas das soluções para estes problemas extrínsecos a nós passa por relativizar,
e encontrar alternativas que nos tragam liberdade e felicidade.
Apesar de todas estas condicionantes é
possível reagir, e fazer o melhor que se pode, haverá sempre pessoas que
estarão não nossa condição, haverá sempre pessoas que não se importam assim
tanto com isso, há sempre coisas alternativas que nós poderemos fazer, para
além de fazermos o melhor com aquilo que temos. Sobretudo poderemos ser gratos
por aquilo que conseguimos, a gratidão é uma das maiores virtudes.
Ser livre não é uma tarefa fácil de
alcançar, implica muito conhecimento e muito auto-controle, muito relativizar e
agradecer.
Ao longo da nossa vida teremos sempre
vários estados de liberdade, umas vezes com mais outras com menos, na certeza
que precisamos sempre de estar presos a alguém ou alguma coisa que nos dê
conforto, confiança, amor e que no faça sentir seguros.
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