No dia em que me apercebi que te
tinha perdido, não foi agradável e preencheu os meus pensamentos por muitos
dias, mesmo muitos. No fundo acho que nunca te perdi, por nunca te tive, na
vida ninguém pertence a ninguém, nem os filhos pertencem os pais, nem sequer as
mães, apesar de todos termos tido uma relação de um só durante 9 meses. Nem os
irmãos pertencem uns aos outros, já para não falar das relações conjugais,
muito menos de amigos.
Tenho a plena consciência que as
amizades não são eternas, poucas são as pessoas que mantêm amigos para toda a
vida. Eu de certeza que não sou uma dessas pessoas. Mas como diz o meu irmão: “Os
amigos são como as contas bancárias, por vezes temos um saldo elevado, outras
vezes está a zero e outras até está negativo, estando negativo não quer dizer
que não volte a estar positivo depende dos caso”. No meu caso tenho verificado
que quando o saldo está a zero ou negativo, as contas acabam-se sempre por
encerrar, na maior parte das vezes são os outros a encerra-las, raramente tenho
a lucidez de ver que elas estão em tão más condições.
Foi o que aconteceu com a Susana,
que era minha amiga desde o tempo da faculdade. Há cerca de
um ano num dos
telefonemas que fiz ela disse-me qualquer coisa deste género “Ainda bem que
ligas, e que pensas imensas vezes em mim, assim mantemos a nossa amizade, se
não fosses tu a ligar”, ao que eu respondi “Eu entendo isso, tens duas filhas
pequenas, muito trabalho, uma família grande e imensos amigos. Eu não tenho
nada disso por isso tenho mais disponibilidade para ligar”.
E continuei a ligar vezes sem
conta, umas vezes a Susana atendia e outras não. Mas eu liguei sempre pois já
conheço a Susana desde a Faculdade e sempre foi para mim uma pessoa muito
querida, como é sempre para toda a gente. A Susana é uma daquelas pessoas que
encanta logo no primeiro contacto e ao contrário da maior parte das pessoas
ainda fica mais encantadora quando se conhece melhor. Por isso tem sempre muita
gente à volta dela, e talvez seja por isso que já não tenha espaço para mim, ou
ande tão atarefada ou cansada que não tem tempo para todos os que a rodeiam ou querem
rodear, ou então não está para se chatear e o mais certo é falta também de
amizade e em relação a isso não há literalmente nada que se possa fazer.
Apercebi que a Susana mudou muito
quando teve a primeira filha a Leonor há quatro anos. A rapariga loura de olhos
verdes que transpirava calma e confiança, tornou-se numa mulher muito nervosa e
insegura, mas sobretudo muito impaciente. Desde logo me apercebi que não queria
que lhe tocasse na criança, devia ser por causa da sua insegurança, talvez
tivesse medo que eu a deixasse cair ou magoar, não sei bem. Quando esse tipo de
situações acontecia eu ficava sempre triste, até chegar ao ponto de não ligar
nenhuma para as filhas dela. Há tempos estivemos num piquenique, onde estava a
Susana Vieira que tem um bebé chamado João. Ainda não conhecia o João a minha
tendência foi pegar-lhe ao colo, ele é tão giro. Passado um pouco veio o
comentário da Susana, porque tens o João ao colo era melhor coloca-lo no
carrinho. Ao que eu respondi: “ deixa estar comigo que está mais aconchegado,
para além disso eu ainda não o conhecia”. Mas eu sei porque a Susana reagiu assim,
sempre teve esta reacção em relação as filhas dela.
Não me quero lamentar, só falar
sobre este assunto: “Eu não consigo manter relações de amizade por muito tempo,
nem crio empatia com as pessoas com muita facilidade”. Talvez isto aconteça com
muita gente, só que normalmente as pessoas não falam das coisas negativas, não
falam das chatices que têm, das merdas que fazem aos outros e dos amigos que
perdem. Toda a gente quer exibir o sucesso e felicidade.
Já há muito que percebi que tenho
de fazer o mesmo, não posso expor as minhas fragilidades, porque as pessoas
ainda me deitam mais abaixo. Tenho mesmo de me proteger.
Talvez esteja a passar por uma
fase difícil nos relacionamentos, provavelmente por causa da minha impaciência
e também do individualismo que vou ganhando, fruto de viver sozinha, não sei. Nos
últimos tempos muitas pessoas foram ficando para traz, as amigas do secundário,
a Isabel que acabamos por nos chatear depois de umas férias passadas juntas. E
agora a Susana.
Telefonei, já telefonei várias
vezes, nunca tive resposta, a minha suspeita de afastamento começou uma vez que
falei com a Ana e eu disse: “Liguei à Susana mas não me atendeu nem me voltou a
ligar” e a Ana que é sempre bastante assertiva disse “A não! Não sabia” sorriu
e ficou um pouco calada. Olhando para trás deveria ter estado mais atenta aos sinais,
porque a Susana sempre convidou para aniversários dela e das filhas, combinava
piqueniques e saídas à noite, deixou de fazer isso tudo. Embora eu saiba que
ela faz isso com outros amigos.
Curioso que antes quando me
apercebia que perdia alguém ficava muito triste, agora já me é um pouco indiferente,
vou ganhando calo, ou a vida foi me ensinando a não sofrer pelos outros, ou
sofro à mesma, mas tem passado mais rápido. Não vou dizer que não fico triste
pela perda da Susana a questão é que não posso andar sempre atrás dos outros,
se ela não quer estar comigo, não há mesmo nada que posso fazer, talvez até
haja mas eu não sei o quê. Não sei mesmo o que posso fazer ou mudar em mim. Sei
que nos últimos tempos tenho criado alguns conflitos com algumas pessoas e
outras não sei porquê têm se afastado de mim. Talvez seja a ordem natural das
coisas, pois há medida que os anos passam vamos reduzindo as pessoas com quem
mantemos contacto, nem sei, não sei mesmo nada. Este tem que ser um caminho de
autodescoberta de aprender a criar empatia com as pessoas e depois não as
deixar fugir.
Estamos no inicio de um novo ano,
vou começar a ter aulas de teatro numa escola nova, vou diferentes aulas no
ginásio, e entrarão novas pessoas no meu grupo de voluntariado, vou ver o que o
futuro me reserva, e as pessoas que me vão aparecer pelo caminho.

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