No sábado passado num passeio com a minha amiga Fátima na marginal de
Matosinhos, resolvemos dar um saltinho a uma pastelaria bem famosa. Pedimos a
nossa big fatia torta, e entre comentários sobre os cuidados com a linha, eu
com tanta preocupação de não aumentar a minha cinturinha frente a um pedação
tão grande de bolo com chantili, nem sequer reparei que a menina que tão
gentilmente nos serviu, era bastante forte, realmente a minha conversa não
tinha qualquer razão de ser.
Os meus comentários ainda se tornaram mais despropositados quando apareceu
uma pessoa do sexo masculino, aí com os seus 45 ou 50 anos a pedir para lhe
pagarmos uma fatia. Eu com a minha aparente generosidade oferecia a minha, até
porque tinha acabado de comer um gelado, e não tinha sequer apetite para aquilo
tudo, para além de achar que já eram imensas calorias para um dia só. A minha
amiga, sempre com o seu estado de graça, pediu imediatamente à empregada do
café para lhe servir uma fatia de torta, sem stress algum ofereceu-se para
pagar. Quando eu já achava que atitude dela era qualquer coisa de espectacular,
apareceu outro cliente, do nada, e prontificou-se para pagar a torta e ofereceu
logo uma bebida.
Sinceramente fiquei sem palavras para tanta generosidade. Sei que a minha
colega não vive assim tão abastada, mas oferece-se sempre para pagar, mesmo
quando vamos ao café só as duas. Paga imensas vezes o lanche a uma amiga nossa,
é inimaginável as inúmeras vezes que ela faz isso, e espontaneamente oferece
uma fatia de bolo a uma pessoas que nem sequer conhece. No entanto já deveria
estar escrito nas estrelas que naquela exato momento em que a Fátima ofereceu o
lanche, iria aparecer uma pessoa com uma extrema simpatia e vontade de dar e
sem hesitações perguntou “O que quer beber” e dirigiu-se para o balcão disse “
Sirvam-lhe a bebida, Quanto é, eu pago?” e virou para nós e disse: “Obrigada,
deixem estar, é por minha conta”. É curioso que faço voluntariado já há 4 anos
e vou ficando cada vez mais insensível as estas coisas. Tantas vezes sou
abordada na rua por pessoas que pedem comida, umas que precisam mesmo, acho eu,
outras querem é dinheiro, acabo sempre por encaminhar para as carrinhas de
apoio, sem sequer pensar muito, e sigo o meu caminho com a completa
indiferença, de quem acha que já faz muito pelos outros.
Este fim-de-semana foi mesmo rico em histórias, no Domingo passado
desloquei-me a terra natal, uma aldeia no interior. Como habitual fui tomar um
cafezinho como meu irmão. Normalmente nunca encontramos ninguém pelo caminho, a
não ser um menino, mais ou menos da minha idade, ou seja a chegar aos 40. Ele
está sempre por ali, ou sentado ou de pé há espera que venha alguém e fale com
ele. Sempre com um sorriso nos lábios e com um ar ternurento, que não sei de
onde vem, não deve ser de origem genética, porque os pais dele são mesmo
intragáveis, até agressivos no relacionamento.
Aquele menino faz sempre companhia a quem passa, ou até a quem vai
unicamente dar um passeio de propósito para o encontrar e dar duas de letra,
porque precisa de companhia, as ruas daquela aldeia são sempre desertas, não se
vê viva-alma, e ele acaba por prestar aquele serviço, de tirar os mais velhos
da solidão nem que seja por breves momentos, talvez seja a missão dele aqui na
terra, é aquilo que ele tem para dar.
Mas no domingo aquele menino não estava tão sereno como o habitual, estava
a falar alto e de uma forma descontrolada. Não sei bem o que se passou, também
não quis estar a preguntar. Estava rodeado de alguns pessoas que o tentavam
consolar, uma delas ofereceu-lhe um bolo, que ele recusou. Um filme que parecia
mais de um adulto a consolar uma criança.
Nós nem sequer parámos para perceber o que se passava, também não era
difícil de adivinhar.
O João é um menino com necessidades especiais, quando era ainda criança foi
mordido por um cão, e nunca conseguiu voltar a ter a vida que tinha antes.
Nunca foi para uma escola normal, nunca aprendeu a ler ou a escrever, nunca
brincou com outros meninos, nunca foi a uma discoteca, nem teve uma namorada,
nem sequer bebeu uma cerveja com os amigos. Também nunca foi aceite pela família.
Nunca participou nas festas como caminhões, casamentos ou baptizados dos
sobrinhos, nem sequer alguma vez foi convidado a dar um passeio de domingo com
a família. Nada, literalmente nada. Quando era ainda criança chegou andar numa
escola especializada, mas chegaram os 18 anos teve de sair e ficou por ali,
perdido no tempo e no espaço, sem ter grandes cuidados.
Neste domingo deve ter acontecido a mesma coisa, havia festa na aldeia, o
pai dele era mordomo e levava um andor, os irmãos vieram da Suíça onde trabalham,
para a festa, pelo que me apercebi, não tenho a certeza almoçaram todos juntos
em casa, e foram todos para a festa, deixando o João para traz. Ignorando que
ele estava ali, à espera de um convite, esperando que lhe vestissem uma roupa
nova, ou decente, e o levassem à festa. Mas isso não aconteceu, a família não
teve sensibilidade para perceber que o João iria ficar a sofrer, que se
sentiria rejeitado, e que a rejeição é uma coisa muito dura, e muito difícil de
aceitar. Só quem sente na pele percebe esse sentimento.
Quando voltei do café fui falar com o João, numa tentativa de o entreter e
de lhe dar um pouco de consolo, Perguntei se estava bem, ao que me respondeu
que mais ou menos, eu perguntei porque não estava bem, ele disse-me que era a
vida. Continuei a falar sem ter resposta, até que decidi vir embora. Não sei o
que ele pensou quando virei costas, e nem sei que sentimentos me passaram pela
cabeça quando ficamos os dois entregues aos nossos mundos. Não imagino o que o
João ficou a pensar. Foi difícil para mim saber o que sentia, por um lado
imaginei que ele estaria a sentir rejeitado, ou revoltado. Por outro lado eu
sentia uma grande sensação de impotência, paralisada nos meus medos, não sei.
Mas contei esta história a toda a gente, e quando eu conto qualquer coisa é
porque não estou em paz comigo, e com esta história não fiquei mesmo tranquila.
Gostava que o João fosse para uma Instituição, pelo menos durante o dia,
para fazer qualquer coisa e para socializar, ou ter alguém que o acarinhasse ou
desse a atenção que ele merece. Penso que os pais procuraram quando ele saiu da
escola aos 18 anos, mas perante tantos obstáculos desistiram, e agora estão
acomodados à situação.
Queria fazer algo pelo João, acho que toda a gente quer, mas toda a gente
tem medo, medo sabe-se lá do quê. Espero que seja medo que as pessoas sentem, é
bem mais tranquilo que ser indiferente. Não há nada pior que a indiferença.

