quarta-feira, 29 de junho de 2016

Há uma linha que separa a imensa generosidade da estranha falta de sensibilidade.

No sábado passado num passeio com a minha amiga Fátima na marginal de Matosinhos, resolvemos dar um saltinho a uma pastelaria bem famosa. Pedimos a nossa big fatia torta, e entre comentários sobre os cuidados com a linha, eu com tanta preocupação de não aumentar a minha cinturinha frente a um pedação tão grande de bolo com chantili, nem sequer reparei que a menina que tão gentilmente nos serviu, era bastante forte, realmente a minha conversa não tinha qualquer razão de ser.

Os meus comentários ainda se tornaram mais despropositados quando apareceu uma pessoa do sexo masculino, aí com os seus 45 ou 50 anos a pedir para lhe pagarmos uma fatia. Eu com a minha aparente generosidade oferecia a minha, até porque tinha acabado de comer um gelado, e não tinha sequer apetite para aquilo tudo, para além de achar que já eram imensas calorias para um dia só. A minha amiga, sempre com o seu estado de graça, pediu imediatamente à empregada do café para lhe servir uma fatia de torta, sem stress algum ofereceu-se para pagar. Quando eu já achava que atitude dela era qualquer coisa de espectacular, apareceu outro cliente, do nada, e prontificou-se para pagar a torta e ofereceu logo uma bebida. 

Sinceramente fiquei sem palavras para tanta generosidade. Sei que a minha colega não vive assim tão abastada, mas oferece-se sempre para pagar, mesmo quando vamos ao café só as duas. Paga imensas vezes o lanche a uma amiga nossa, é inimaginável as inúmeras vezes que ela faz isso, e espontaneamente oferece uma fatia de bolo a uma pessoas que nem sequer conhece. No entanto já deveria estar escrito nas estrelas que naquela exato momento em que a Fátima ofereceu o lanche, iria aparecer uma pessoa com uma extrema simpatia e vontade de dar e sem hesitações perguntou “O que quer beber” e dirigiu-se para o balcão disse “ Sirvam-lhe a bebida, Quanto é, eu pago?” e virou para nós e disse: “Obrigada, deixem estar, é por minha conta”. É curioso que faço voluntariado já há 4 anos e vou ficando cada vez mais insensível as estas coisas. Tantas vezes sou abordada na rua por pessoas que pedem comida, umas que precisam mesmo, acho eu, outras querem é dinheiro, acabo sempre por encaminhar para as carrinhas de apoio, sem sequer pensar muito, e sigo o meu caminho com a completa indiferença, de quem acha que já faz muito pelos outros.

Este fim-de-semana foi mesmo rico em histórias, no Domingo passado desloquei-me a terra natal, uma aldeia no interior. Como habitual fui tomar um cafezinho como meu irmão. Normalmente nunca encontramos ninguém pelo caminho, a não ser um menino, mais ou menos da minha idade, ou seja a chegar aos 40. Ele está sempre por ali, ou sentado ou de pé há espera que venha alguém e fale com ele. Sempre com um sorriso nos lábios e com um ar ternurento, que não sei de onde vem, não deve ser de origem genética, porque os pais dele são mesmo intragáveis, até agressivos no relacionamento. 

Aquele menino faz sempre companhia a quem passa, ou até a quem vai unicamente dar um passeio de propósito para o encontrar e dar duas de letra, porque precisa de companhia, as ruas daquela aldeia são sempre desertas, não se vê viva-alma, e ele acaba por prestar aquele serviço, de tirar os mais velhos da solidão nem que seja por breves momentos, talvez seja a missão dele aqui na terra, é aquilo que ele tem para dar.

Mas no domingo aquele menino não estava tão sereno como o habitual, estava a falar alto e de uma forma descontrolada. Não sei bem o que se passou, também não quis estar a preguntar. Estava rodeado de alguns pessoas que o tentavam consolar, uma delas ofereceu-lhe um bolo, que ele recusou. Um filme que parecia mais de um adulto a consolar uma criança. 

Nós nem sequer parámos para perceber o que se passava, também não era difícil de adivinhar.

O João é um menino com necessidades especiais, quando era ainda criança foi mordido por um cão, e nunca conseguiu voltar a ter a vida que tinha antes. Nunca foi para uma escola normal, nunca aprendeu a ler ou a escrever, nunca brincou com outros meninos, nunca foi a uma discoteca, nem teve uma namorada, nem sequer bebeu uma cerveja com os amigos. Também nunca foi aceite pela família. Nunca participou nas festas como caminhões, casamentos ou baptizados dos sobrinhos, nem sequer alguma vez foi convidado a dar um passeio de domingo com a família. Nada, literalmente nada. Quando era ainda criança chegou andar numa escola especializada, mas chegaram os 18 anos teve de sair e ficou por ali, perdido no tempo e no espaço, sem ter grandes cuidados. 

Neste domingo deve ter acontecido a mesma coisa, havia festa na aldeia, o pai dele era mordomo e levava um andor, os irmãos vieram da Suíça onde trabalham, para a festa, pelo que me apercebi, não tenho a certeza almoçaram todos juntos em casa, e foram todos para a festa, deixando o João para traz. Ignorando que ele estava ali, à espera de um convite, esperando que lhe vestissem uma roupa nova, ou decente, e o levassem à festa. Mas isso não aconteceu, a família não teve sensibilidade para perceber que o João iria ficar a sofrer, que se sentiria rejeitado, e que a rejeição é uma coisa muito dura, e muito difícil de aceitar. Só quem sente na pele percebe esse sentimento.

Quando voltei do café fui falar com o João, numa tentativa de o entreter e de lhe dar um pouco de consolo, Perguntei se estava bem, ao que me respondeu que mais ou menos, eu perguntei porque não estava bem, ele disse-me que era a vida. Continuei a falar sem ter resposta, até que decidi vir embora. Não sei o que ele pensou quando virei costas, e nem sei que sentimentos me passaram pela cabeça quando ficamos os dois entregues aos nossos mundos. Não imagino o que o João ficou a pensar. Foi difícil para mim saber o que sentia, por um lado imaginei que ele estaria a sentir rejeitado, ou revoltado. Por outro lado eu sentia uma grande sensação de impotência, paralisada nos meus medos, não sei. Mas contei esta história a toda a gente, e quando eu conto qualquer coisa é porque não estou em paz comigo, e com esta história não fiquei mesmo tranquila. 

Gostava que o João fosse para uma Instituição, pelo menos durante o dia, para fazer qualquer coisa e para socializar, ou ter alguém que o acarinhasse ou desse a atenção que ele merece. Penso que os pais procuraram quando ele saiu da escola aos 18 anos, mas perante tantos obstáculos desistiram, e agora estão acomodados à situação.

Queria fazer algo pelo João, acho que toda a gente quer, mas toda a gente tem medo, medo sabe-se lá do quê. Espero que seja medo que as pessoas sentem, é bem mais tranquilo que ser indiferente. Não há nada pior que a indiferença.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Porquê desistir agora, quase no fim?



Ainda nem acredito que estou a desistir do teatro, a uma semana da apresentação final, o que quero mesmo é desistir, desaparecer de lá sem dar cavaco a ninguém, nem se quer me justificar.

A verdade é que estou completamente desmotivada, e sem motivação não há nada que eu posso fazer, nada mesmo.

Já há algum tempo tenho comentado com a minha irmã e confidente, sobretudo das coisas menos positivas, que as coisas não estavam a correr assim tão bem nas aulas de teatro. Nunca comentei isso com ninguém até porque as pessoas com quem vou comentando a minha vida, por vezes parecem ficar contentes com o meu insucesso. Sinceramente não estou para dar esse prazer a ninguém.

Mas voltando às aulas de teatro, que é por isso que estou a escrever, acho que desde janeiro ou fevereiro que noto que qualquer coisa não está muito bem, não sei bem o quê. Várias vezes pensei em falar isso com a professora, reflecti muitas vezes sobre isso. Invariavelmente cheguei sempre à conclusão que não valia a pena, não me iria levar a lado nenhum. Talvez se tivesse falado seria eu a dizer uma coisa, e a professora a dizer isso não é nada assim são minhocas na tua cabeça. Provavelmente sim ou talvez não.

Tenho plena consciência que não tenho jeito para o teatro, também não foi para ser atriz que comecei a ter aulas. Quis experimentar esta actividade porque queria desenvolver uma parte em mim pouco trabalhada, que é a parte artística. Nunca tive aulas de música, teatro, dança, ou pintura e sei que nesta área não estou nada confortável. Normalmente estas actividades são desenvolvidas quando somos crianças, mas também aprendi a nadar em adulta, não sou grande nadadora, mas sei nadar. O mesmo aconteceu para o inglês, não sou nenhuma falante natural, mas desenrasco-me.

Com o teatro queria treinar a parte, de falar à vontade em público e a expressão corporal, para além da parte criativa e de improvisação. Estas duas últimas vertentes, acho que as conseguia avivar mais, talvez por ter feito um grande esforço da minha parte. A vertente de expressão corporal que queria ter trabalhado nas aulas, ficou muito aquém do que eu queria, ou tinha sonhado no Inicio do ano.

Tive momentos muito divertidos, sem dúvida, chegava muitas vezes a casa e contava as aulas à Inês como imenso entusiasmos. Até que comecei a perceber que qualquer coisa de “anormal se passava”, não sei bem o quê, acho que nunca o vou saber. E não tinha nada a ver com a minha falta de jeito, porque verdadeiramente só a Carla e o Daniel têm bastante jeito para a “coisa”. Sinceramente acho que as pessoas que já lá andavam há dois ou três anos, não aprenderam literalmente nada, estavam mais ou menos ao meu nível, ou até pior.

Talvez nunca tenha criado empatia com a Ana, embora numa fase inicial eu gostasse bastante dela. Talvez me tenha aproximado demais dela numa fase inicial e ela não gostou, é claro afastou-se. A professora também dava aulas a crianças com autismo, talvez por isso olhe para mim de uma maneira diferente, porque eu tenho um problema de visão e nunca consegui ler bem os textos. Embora eu tenha assumido isso como uma coisa natural, nunca senti qualquer complexo de inferioridade. Rapidamente comecei a perceber que era a última a ser chamada para fazer os exercícios, ou às vezes nem me dizia para fazer nada, e os colegas é que chamavam à atenção, era estranho, mas em vários casos foi isto que aconteceu e não era impressão minha. Enfim por vezes até sentia que me sentava perto dela e ela se afastava, enfim

Lembro numa vez que ela filmou as actuações de toda a gente e a minha interrompeu-a, dando a desculpa que recebeu uma chamada telefónica. Com esta confusão de sentimentos e de situações mal resolvidas o melhor que posso fazer é afastar-me.

Desisti, e estou tranquila e aliviada por isso. Não costumo seguir os conselhos da minha irmã, ir embora sem dizer nada, pura e simplesmente desligar, mas nesta situação é o que sinto que devo fazer.

É bom conseguir escrever e falar sobre isso, dá me uma certa tranquilidade parece terapêutico. Apesar disto não vou desistir de investir na minha vertente artística, talvez até no teatro, mas agora sem me estar a comprometer com nada e completamente se definidor objectivos ou colocar as espectativas muito altas.