Ainda nem acredito que estou a
desistir do teatro, a uma semana da apresentação final, o que quero mesmo é
desistir, desaparecer de lá sem dar cavaco a ninguém, nem se quer me
justificar.
A verdade é que estou
completamente desmotivada, e sem motivação não há nada que eu posso fazer, nada
mesmo.
Já há algum tempo tenho comentado
com a minha irmã e confidente, sobretudo das coisas menos positivas, que as
coisas não estavam a correr assim tão bem nas aulas de teatro. Nunca comentei
isso com ninguém até porque as pessoas com quem vou comentando a minha vida,
por vezes parecem ficar contentes com o meu insucesso. Sinceramente não estou
para dar esse prazer a ninguém.
Mas voltando às aulas de teatro,
que é por isso que estou a escrever, acho que desde janeiro ou fevereiro que
noto que qualquer coisa não está muito bem, não sei bem o quê. Várias vezes
pensei em falar isso com a professora, reflecti muitas vezes sobre isso.
Invariavelmente cheguei sempre à conclusão que não valia a pena, não me iria
levar a lado nenhum. Talvez se tivesse falado seria eu a dizer uma coisa, e a
professora a dizer isso não é nada assim são minhocas na tua cabeça. Provavelmente
sim ou talvez não.
Tenho plena consciência que não
tenho jeito para o teatro, também não foi para ser atriz que comecei a ter
aulas. Quis experimentar esta actividade porque queria desenvolver uma parte em
mim pouco trabalhada, que é a parte artística. Nunca tive aulas de música,
teatro, dança, ou pintura e sei que nesta área não estou nada confortável.
Normalmente estas actividades são desenvolvidas quando somos crianças, mas
também aprendi a nadar em adulta, não sou grande nadadora, mas sei nadar. O
mesmo aconteceu para o inglês, não sou nenhuma falante natural, mas
desenrasco-me.
Com o teatro queria treinar a
parte, de falar à vontade em público e a expressão corporal, para além da parte
criativa e de improvisação. Estas duas últimas vertentes, acho que as conseguia
avivar mais, talvez por ter feito um grande esforço da minha parte. A vertente
de expressão corporal que queria ter trabalhado nas aulas, ficou muito aquém do
que eu queria, ou tinha sonhado no Inicio do ano.
Tive momentos muito divertidos,
sem dúvida, chegava muitas vezes a casa e contava as aulas à Inês como imenso entusiasmos.
Até que comecei a perceber que qualquer coisa de “anormal se passava”, não sei
bem o quê, acho que nunca o vou saber. E não tinha nada a ver com a minha falta
de jeito, porque verdadeiramente só a Carla e o Daniel têm bastante jeito para
a “coisa”. Sinceramente acho que as pessoas que já lá andavam há dois ou três anos,
não aprenderam literalmente nada, estavam mais ou menos ao meu nível, ou até
pior.
Talvez nunca tenha criado empatia
com a Ana, embora numa fase inicial eu gostasse bastante dela. Talvez me tenha
aproximado demais dela numa fase inicial e ela não gostou, é claro afastou-se.
A professora também dava aulas a crianças com autismo, talvez por isso olhe
para mim de uma maneira diferente, porque eu tenho um problema de visão e nunca
consegui ler bem os textos. Embora eu tenha assumido isso como uma coisa
natural, nunca senti qualquer complexo de inferioridade. Rapidamente comecei a
perceber que era a última a ser chamada para fazer os exercícios, ou às vezes
nem me dizia para fazer nada, e os colegas é que chamavam à atenção, era
estranho, mas em vários casos foi isto que aconteceu e não era impressão minha.
Enfim por vezes até sentia que me sentava perto dela e ela se afastava, enfim
Lembro numa vez que ela filmou as
actuações de toda a gente e a minha interrompeu-a, dando a desculpa que recebeu
uma chamada telefónica. Com esta confusão de sentimentos e de situações mal
resolvidas o melhor que posso fazer é afastar-me.
Desisti, e estou tranquila e
aliviada por isso. Não costumo seguir os conselhos da minha irmã, ir embora sem
dizer nada, pura e simplesmente desligar, mas nesta situação é o que sinto que
devo fazer.
É bom conseguir escrever e falar
sobre isso, dá me uma certa tranquilidade parece terapêutico. Apesar disto não
vou desistir de investir na minha vertente artística, talvez até no teatro, mas
agora sem me estar a comprometer com nada e completamente se definidor
objectivos ou colocar as espectativas muito altas.

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