segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Recados pelo facebook



Hoje tive de te telefonar, tive de ter a humildade de te telefonar, já sabia que não o ias fazer, já sei como és, por medo, ou por alguma cobardia nunca tomas a iniciativa de falar quando as coisas estão menos bem. Desta vez foi igual, mas como eu consigo perdoar tanta coisa a toda a gente, também tinha de ter a humildade para tomar a iniciativa de te ligar. Sim porque tu és minha irmã e agora estás a passar uma fase mesmo complicada da tua vida. Se te acontecesse alguma coisa agora, eu iria ficar com remorsos para toda a vida, por não te ter ligado.

Na sexta feira liguei te, não atendeste, não me lembrei que estavas com o Carlos, o teu amigo colorido, se não nunca te teria ligado. Claro mandas te uma mensagem pelo facebook, de uma foto na praia, fiquei logo a saber que estavas bem, isso foi bom, e também o motivo pela qual não me atendeste o telefone. Penso que também não te deves ter sentido bem com esta situação, porque à noite tinha mais um post no facebook com o seguinte texto:

"28-10-2016 - uma pequena parte de um diário:
A Lina Pereira, minha irmã trouxe-me flores, para além de tudo o que nos une, partilhamos também o gosto pela Natureza e pela vida".

E esta fotografia, um planta que te ofereci quando estavas no hospital, naquela sexta feira em que acordas te da operação a um cancro de mama. Escolhi flores brancas porque sei que gostas, escolhi uma planta porque é o símbolo da vida, e nessa altura é mesmo o que nós precisávamos, de vida e alegria.

Não sei qual foi o teu objectivo com este post, não sei no que estavas a pensar, nunca o vou saber, porque nunca vais ter coragem de me dizer. Acontece sempre assim quando qualquer coisa está mal, nunca falas, foges sempre e depois vais escrever, para aliviares a tua alma. Não sei se é exactamente assim mas é assim que eu te vejo.

Se soubesses o quanto fiquei triste quando vi aquele post, se soubesse o quanto eu fico triste quando não falas comigo e depois escreves coisas em público, num modo dissimulado de pedir desculpa ou de me dizeres que estas grata por qualquer coisa, afinal já nos conhecemos há 40 anos, ainda por cima somo grandes confidentes. Mas tu parece que ainda não me conheces bem, pelo menos não sabes as coisas que me deixam irritada e profundamente triste, mandar indirectas pelo facebook é uma delas.

Mas nem vou falar isso contigo não vela a pena, iria dar em discussão, para variar, quando acontece qualquer coisa menos boa, foges sempre, acabamos por nunca falar, ou se falamos discutimos, neste caso ficamos um tempo sem falar, depois quando a neura já me tem passado, eu acabo sempre por ceder e as coisas para ti ficam bem, mas para mim não, nunca ficam.

Olha, agora estou a fazer o mesmo que tu, a escrever, eu sei que tu nunca vais ler, mas eu ficarei um pouco mais tranquila, porque escrever é uma terapia, é a forma de verbalizar o que penso e desta forma e daqui por um bocado tudo isto fica muito relativo e já não terá importância até que uma situação mais ou menos parecida voltar acontecer, pois nós nunca temos a originalidade de fazer coisas diferentes até as coisas menos positivas fazemos sempre de igual forma.

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