Ontem estavas tão desorientada, nem imaginas o que ias falando enquanto eu passava a ferro. Falavas de algo mal resolvido no passado que te deixou muitas marcas. Do que percebo ficaste muito magoada porque tratas te do teu pai o melhor que podias, sem pedir nada a ninguém, e ele foi para casa da tua irmã Ana, onde era obrigada a andar a pedir nas ruas. A tua irmã Ana foi levantar um dinheiro que estava depositado numa vizinha (funcionava mais ou menos como D. Branca) sem te dizer literalmente nada. Não sei se ficas te mais magoada com o facto de o teu pai te abandonar se por ela ter tido essa atitude, ou se com as duas coisas já que a magoa é tão grande e as memórias tão presentes.
Depois de teres falado nisto a tarde inteira, quando estava a escurecer, perdeste completamente a noção do tempo e do espaço. Ficas te pior quando te disse que tinha de vir para o Porto. Pensava que irias ficar sozinha. Perdeste a noção que estavas na tua casa e na tua terra, as vezes perguntavas se vinhas comigo para o Porto e passado 5 minutos já estavas a dizer que nunca mais ias comigo para sítio nenhum. Enfim, mas não acabou, deixas te de te lembrar onde era a cozinha e a casa de banho, esqueceste que o Manuel estava em casa. Várias vezes tive de te dizer que o Augusto iria ficar lá em cima contigo. Ainda consegues comer pela tua mão, descascar batatas e colocar água aquecer. Embora já não te lembrasses onde era a cozinha, nem onde estavam as panelas. Tive que te dizer tudo mas tenho a certeza que não valeu a pena, depois começas te a chorar, tentei abraçar te e tu disseste «Isto vai passar». Acho que foi a primeira vez que disseste isso, nas vezes que costumavas chorar, sempre te acalentei, e acabava por passar, ontem não funcionou, já deverias ter noção que ía passar, já te deves ter habituado à solidão e à dor.
Hoje estou mesmo muito ansiosa, pois não sei como estás, não sei se almoças-te, não sei se saíste de casa e te perdeste. Várias vezes liguei para ti, não sei se estavas na cama, ou se tinhas saído, de manhã ninguém atendia, à tarde tu deitas a chamada a baixo, antes ligavas sempre de volta, agora não, não consegues fazer isso.
Embora me custe muito temos de tomar uma solução em relação a ti, seria bom que alguém lá fosse, fizesse a tua higiene e te desse comida. Está fora de questão levarem te lá comida, tu não comes nada, está fora de questão ires para um centro de dia ou um lar, pelo menos para já. Nem sei como vou encarar essa situação.
No final do dia gostava de te ligar e gostava que já estiveste bem, mas sei que isso não vai acontecer. Coitado do meu irmão que vai está a suportar tudo sozinho, e até está a reagir bem, eu não reagiria assim tão bem. A minha irmã e os meus outros dois irmãos não estão nem aí, nem querem saber. Talvez o meu irmão Manuel até esteja consciente dos factos, mas é padre e está muito habituado a lidar com o sofrimento e a morte. A minha irmã está de lua de mel, mas mesmo que não estivesse não se importaria.
Desde há dois anos que tens vindo a ter estas crises de esquecimento, passado uns dias passa e tu orientas te mais ou menos bem. Acho que desta vez foi bem pior, perdeste completamente a noção do tempo e do espaço, e do sítio onde moravas, parecem-me sintomas de Alzheimer ou de demência grave acompanhada de ansiedade, depressão e muita solidão.
Odeio ver-te sofre, tu sempre trabalhaste muito, quando eras solteira tiveste de ir trabalhar para as quintas do Douro para conseguires pagar as dívidas dos teus pais. Quando eles faleceram, casa-te, nem por isso deixas te de trabalhar, tiveste a sorte de ter um marido que te amava mais que a ele próprio. O teu marido faleceu e ficas te com cinco crianças a teu cargo. Trabalhaste noite e dia até as tuas forças se esgotarem, até o teu coração avisar, já não dá mais tens mesmo de parar. Quando pensavas que irias gozar a reforma os teus filhos começaram a trabalhar e saíram praticamente todos de casa. No fundo ficas te entregue quase à solidão, não totalmente porque o Augusto ficou lá por casa e vai te fazendo companhia ao fim do dia. Agora mais, quando estavas bem era bem menos, mas ele tem a vida dele, tal como eu tenho a minha, por isso também temos de estar com os nossos amigos e fazer coisas diferentes. Cada um tem que seguir o seu caminho, mas tu precisas de muita atenção. Ainda tens a sorte de nem eu nem o Augusto termos constituído família, porque se isso tivesse acontecido já há muito tempos que teríamos tomado a decisão que andamos adiar constantemente e que não interessa a ninguém.
Só queria falar contigo hoje e saber que te lembras de mim, e saber que não estás a sofrer de solidão, nem que estás com problemas físicos. Acho que merecias uma vida melhor, mais confortável, mas tu também não és muito sociável, não te és de te relacionar com toda a gente. Quando estavas solteira centras te as tuas atenções nos teus pais, quando casas-te as atenções viram-se para o marido e os filhos. Embora a minha irmã diga que tu só querias os filhos perto de ti, na verdade eu acho que tu queres que os filhos estejam bem, queres atenção deles e atenção das amigas, que não são muitas, mas com quem tu adoras estar e conversar. Sim e tu adoras mesmo estar à conversa, embora nessa aldeia meia perdida em Lamego já haja mesmo pouca gente. Já perdeste algumas amigas que te faziam muito bem, com quem tu desabafavas, elas foram embora, as que ficaram moram longe e tu quase não consegues andar.
Queria estar mais tempo contigo, mas também quero estar no Porto e seguir a minha vida e estar com os meus amigos. Se tivesse carro tudo era bem mais fácil, mas não tenho, não é fácil encontrar um equilíbrio. Vou fazer o meu melhor, ser mais paciente, amar te mais, prometo. Tenho conseguir e cumprir
Quando estiver contigo, tenho de estar bem e estar só mesmo contigo.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Tu não merecias este final, mas a idade não perdoa.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Sim, eu consigo, consigo fazer bem, com amor e sem conflitos.
Mais um fim de semana de voluntariado em Braga, não é mais um fim de semana, foi um fim de semana muito especial. Um fim de semana em que aqueles meninos nos acolheram de braços abertos, sorrisos no rosto e com muito amor para dar. Talvez nós não tenhamos assim tantas oportunidades de abrirmos o nosso coração, tão livre e espontaneamente. Penso que os meninos com quem estamos fazem o mesmo e retribuem esse amor a dobrar.
Agora já com mais lucidez (dois dias depois), continua a ser difícil tudo o que sinto em palavras, vou tenta-lo fazer por tópicos.
· Senti-me muito feliz na preparação- foi mesmo uma semana muito boa para mim;
· Adorei a equipa de trabalho, nunca no grupo fiz uma actividade que corresse tão bem;
· Poucas foram as vezes que me agradeceram publicamente. Apesar de a Isabel não o ter feito, ficava-lhe bem fazê-lo. Mas não fiquei chateada, não estava á espera pelas razões que já expliquei noutras ocasiões.
· Foi bom ter o reconhecimento da Sofia, da Rosa e da Ana, a colega com quem trabalhar. Com a Ana consegui trabalhar em perfeita sinfonia. Eu sei que não sou uma pessoa fácil para trabalhar, mas a Ana consegui entender a minha limitação física e não ficou chateada com isso.· Adorei a equipa de trabalho, nunca no grupo fiz uma actividade que corresse tão bem;
· Poucas foram as vezes que me agradeceram publicamente. Apesar de a Isabel não o ter feito, ficava-lhe bem fazê-lo. Mas não fiquei chateada, não estava á espera pelas razões que já expliquei noutras ocasiões.
· Foi bom ouvir expressões como:
o Tu trabalhas te muito:
o Estas imagens estão bonitas
o Não sabia que a Lina trabalhava assim tanto (não é que eu precisasse disto para ser o que sou, mas sabe sempre bem)
· Não consegui estabelecer grandes ligações com os meninos da casa, mas consegui cuidar bem do grupo, uma coisa compensa bem a outra;
· Não é que eu precisasse muito disso, mas consegui mostrar à Direcção que eu consigo, e o que faço, faço bem e com amor. Espero que quando me convidarem para fazer outra actividade qualquer não seja só porque sim, ou por pena, ou porque temos de chamar todos os voluntários, mas porque eu mereço e porque confiam em mim. Acho que com esta direcção isso não vai acontecer.
Do fim de semana fica ainda a partilha da Sofia, eu gosto imenso dela, não só pelo que ela é, mas porque me identifico com o que ela diz e sobretudo com o que ela faz. Está sempre no momento certo à hora exacta e tem sempre as palavras mais exatas para dizer nos momentos mais oportunos. Eu admiro-a imenso, não queria ser como ela, nem é o meu ídolo, mas para mim é uma estrela guia.
Uma das coisas que fica é este poema:
"Tem sempre Itaca no teu pensamento.
Chegar a Itaca é para o que estás destinado.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
De modo que tenhas vivido muito antes de chegares à Ilha,
Que sejas rico de tudo o que viveste no caminho,
Sem esperar que Itaca te dê riquezas.
Itaca deu-te essa maravilhosa viagem.
Sem Itaca, não terias partido.
Ela não tem mais nada para te dar.
E se a descobres pobre, Itaca não te traiu.
Sábio como te tornaste,
Tão cheio de experiências,
Terás compreendido então o sentido de Itaca para ti."
Constantin p. Cavafy

Fica também o agradecimento público da Maie, acho que pela primeira vez alguém o fez de forma desprendida e sem preconceito. Só poderia ser a Maie a fazer isto, sempre foi a pessoa que me aceitou melhor, e pelo facto de ser estrangeira tem muitos menos preconceitos. Isto foi o que ela escrever no facebook
"Obrigada querida Lina pela tua amizade e pela partilha linda. Obrigada G.A.S. Porto pela esta maravilhosa caminhada que me estás a proporcionar. São muitos os sorrisos, abraços, experiências, valores profundos e sinceros que a nossa mala de viagem já contém.
Estou muito feliz e grata por conhecer tanta gente humilde e unida pela paixão de melhorar o mundo!

Espero que a viagem que comecei há 5 anos e tantos percalços e chatices me causou, mas também com muitos momentos de felicidade, comece agora a ser mais tranquila, com mais paz e mais amor.
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