terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Tu não merecias este final, mas a idade não perdoa.



Ontem estavas tão desorientada, nem imaginas o que ias falando enquanto eu passava a ferro. Falavas de algo mal resolvido no passado que te deixou muitas marcas. Do que percebo ficaste muito magoada porque tratas te do teu pai o melhor que podias, sem pedir nada a ninguém, e ele foi para casa da tua irmã Ana, onde era obrigada a andar a pedir nas ruas. A tua irmã Ana foi levantar um dinheiro que estava depositado numa vizinha (funcionava mais ou menos como D. Branca) sem te dizer literalmente nada. Não sei se ficas te mais magoada com o facto de o teu pai te abandonar se por ela ter tido essa atitude, ou se com as duas coisas já que a magoa é tão grande e as memórias tão presentes.


Depois de teres falado nisto a tarde inteira, quando estava a escurecer, perdeste completamente a noção do tempo e do espaço. Ficas te pior quando te disse que tinha de vir para o Porto. Pensava que irias ficar sozinha. Perdeste a noção que estavas na tua casa e na tua terra, as vezes perguntavas se vinhas comigo para o Porto e passado 5 minutos já estavas a dizer que nunca mais ias comigo para sítio nenhum. Enfim, mas não acabou, deixas te de te lembrar onde era a cozinha e a casa de banho, esqueceste que o Manuel estava em casa. Várias vezes tive de te dizer que o Augusto iria ficar lá em cima contigo. Ainda consegues comer pela tua mão, descascar batatas e colocar água aquecer. Embora já não te lembrasses onde era a cozinha, nem onde estavam as panelas. Tive que te dizer tudo mas tenho a certeza que não valeu a pena, depois começas te a chorar, tentei abraçar te e tu disseste «Isto vai passar». Acho que foi a primeira vez que disseste isso, nas vezes que costumavas chorar, sempre te acalentei, e acabava por passar, ontem não funcionou, já deverias ter noção que ía passar, já te deves ter habituado à solidão e à dor.


Hoje estou mesmo muito ansiosa, pois não sei como estás, não sei se almoças-te, não sei se saíste de casa e te perdeste. Várias vezes liguei para ti, não sei se estavas na cama, ou se tinhas saído, de manhã ninguém atendia, à tarde tu deitas a chamada a baixo, antes ligavas sempre de volta, agora não, não consegues fazer isso.


Embora me custe muito temos de tomar uma solução em relação a ti, seria bom que alguém lá fosse, fizesse a tua higiene e te desse comida. Está fora de questão levarem te lá comida, tu não comes nada, está fora de questão ires para um centro de dia ou um lar, pelo menos para já. Nem sei como vou encarar essa situação.


No final do dia gostava de te ligar e gostava que já estiveste bem, mas sei que isso não vai acontecer. Coitado do meu irmão que vai está a suportar tudo sozinho, e até está a reagir bem, eu não reagiria assim tão bem. A minha irmã e os meus outros dois irmãos não estão nem aí, nem querem saber. Talvez o meu irmão Manuel até esteja consciente dos factos, mas é padre e está muito habituado a lidar com o sofrimento e a morte. A minha irmã está de lua de mel, mas mesmo que não estivesse não se importaria.


Desde há dois anos que tens vindo a ter estas crises de esquecimento, passado uns dias passa e tu orientas te mais ou menos bem. Acho que desta vez foi bem pior, perdeste completamente a noção do tempo e do espaço, e do sítio onde moravas, parecem-me sintomas de Alzheimer ou de demência grave acompanhada de ansiedade, depressão e muita solidão.


Odeio ver-te sofre, tu sempre trabalhaste muito, quando eras solteira tiveste de ir trabalhar para as quintas do Douro para conseguires pagar as dívidas dos teus pais. Quando eles faleceram, casa-te, nem por isso deixas te de trabalhar, tiveste a sorte de ter um marido que te amava mais que a ele próprio. O teu marido faleceu e ficas te com cinco crianças a teu cargo. Trabalhaste noite e dia até as tuas forças se esgotarem, até o teu coração avisar, já não dá mais tens mesmo de parar. Quando pensavas que irias gozar a reforma os teus filhos começaram a trabalhar e saíram praticamente todos de casa. No fundo ficas te entregue quase à solidão, não totalmente porque o Augusto ficou lá por casa e vai te fazendo companhia ao fim do dia. Agora mais, quando estavas bem era bem menos, mas ele tem a vida dele, tal como eu tenho a minha, por isso também temos de estar com os nossos amigos e fazer coisas diferentes. Cada um tem que seguir o seu caminho, mas tu precisas de muita atenção. Ainda tens a sorte de nem eu nem o Augusto termos constituído família, porque se isso tivesse acontecido já há muito tempos que teríamos tomado a decisão que andamos adiar constantemente e que não interessa a ninguém.





Só queria falar contigo hoje e saber que te lembras de mim, e saber que não estás a sofrer de solidão, nem que estás com problemas físicos. Acho que merecias uma vida melhor, mais confortável, mas tu também não és muito sociável, não te és de te relacionar com toda a gente. Quando estavas solteira centras te as tuas atenções nos teus pais, quando casas-te as atenções viram-se para o marido e os filhos. Embora a minha irmã diga que tu só querias os filhos perto de ti, na verdade eu acho que tu queres que os filhos estejam bem, queres atenção deles e atenção das amigas, que não são muitas, mas com quem tu adoras estar e conversar. Sim e tu adoras mesmo estar à conversa, embora nessa aldeia meia perdida em Lamego já haja mesmo pouca gente. Já perdeste algumas amigas que te faziam muito bem, com quem tu desabafavas, elas foram embora, as que ficaram moram longe e tu quase não consegues andar.


Queria estar mais tempo contigo, mas também quero estar no Porto e seguir a minha vida e estar com os meus amigos. Se tivesse carro tudo era bem mais fácil, mas não tenho, não é fácil encontrar um equilíbrio. Vou fazer o meu melhor, ser mais paciente, amar te mais, prometo. Tenho conseguir e cumprir


Quando estiver contigo, tenho de estar bem e estar só mesmo contigo.

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